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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Analfabeta funcional

Um a cada quatro pacientes não compreende orientação médica no HC, em SP

Por Ricardo Westin

Dado 1: o remédio deve ser tomado uma hora antes do almoço. Dado 2: o almoço é às 12h. Pergunta: a que hora você deve tomar o remédio? De cada quatro pessoas submetidas a um teste escrito no HC (Hospital das Clínicas) de São Paulo, uma foi incapaz de escrever a resposta certa a perguntas tão corriqueiras como essa.

De cada quatro pessoas, portanto, uma é analfabeta funcional: frequentou a escola, aprendeu a ler e escrever, mas não consegue entender aquilo que lê. As frases escritas não têm significado.
O teste, com questões bem simples (impressas em letra de forma, e não escritas com letra de médico), foi aplicado por neurologistas do HC. Participaram 312 adultos alfabetizados de diferentes idades e escolaridades. Eram acompanhantes de pacientes do HC.

Dessas pessoas, 23,5% não entendem o que leem. Entre as menos escolarizadas (até sete anos de estudos), o índice salta para quase 60%. O analfabetismo funcional afeta inclusive pessoas que chegaram ao ensino médio -14% dos que têm escolaridade de 8 a 11 anos.

O resultado é preocupante tanto em termos de saúde como de educação. Em saúde, por sugerir que parte considerável das pessoas que saem dos consultórios vai tomar o remédio na hora errada ou perder o dia certo da próxima consulta.

"Quando o paciente diz que lê e escreve, o médico explica uma vez, dá a receita e pronto. Não imagina que é analfabeto funcional", diz Ricardo Nitrini, neurologista responsável pelo estudo.

TÁTICAS

A pesquisa do HC, então, serve de alerta aos médicos. Ao notar que o paciente tem dificuldades com a leitura, o profissional deve tratá-lo como um analfabeto absoluto.

O médico Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, criou táticas. Em vez de escrever "tomar um comprimido de manhã e outro à noite", anota "2 por dia". "As pessoas entendem mais facilmente os números", diz.

Em termos de educação, a conclusão do HC é preocupante por confirmar que a escola brasileira não consegue alfabetizar plenamente.

"O professor não usa jornal, letra de música ou panfleto de supermercado. A criança acha que a leitura não é da vida real, que é só uma atividade escolar", explica Onaide Schwartz, professora de metodologia da alfabetização na Unesp.

Para Vera Masagão, da organização Ação Educativa, os governos deveriam levar de volta à escola o adulto de baixa escolaridade: "A EJA [antigo supletivo] precisa mudar e ficar atraente".




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